Blog do Paulo DAuria

25/02/2017

Processo

Antes, sem sinais,
um passarinho foi arrastado ao meu quintal
depois veio a ventania, depois, a tempestade


Uma escola de samba perdeu tudo
o trabalho e o suor de um ano da comunidade no barracão
Um homem foi arrastado pela enxurrada
Um raio caiu em um campo de futebol
Em um deslizamento de encosta
dezessete famílias perderam tudo
mas
rodamoinho-me na espiral infinita de meu quintal
o passarinho morto
o ninho em algum lugar, vazio
minhas mãos se fechando em concha
e a lápide provisória de meus dentes

Li
em um livro de autoajuda
que deveria enterrar mas
fiz melhor
e engoli o passarinho
que agora bate asas nestes versos
Asas que, com minha alma, em meus intestinos se processam
em um olho só

Fiz melhor e engoli o passarinho: três dias de luto.
Quando tudo passar
terei
o vazio
O vazio para viver
O vazio para lembrar
Ninho oco
para dormir
em paz


Escrito por Paulo DAuria às 20h22
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