Blog do Paulo DAuria

06/03/2016

Beijo, abraço, aperto de mão

 

Quer pegar meu filho no colo pra sair na foto. Comer comida aqui da favela. Que nunca viu. Nunca ouviu falar. E depois? Vai voltar? Vai responder nossas cartas? Vai receber nossas passeatas? Vai lembrar?
Quer pegar meu filho na foto pra dar um beijo. E esse sebo em teus cabelos? E esse cheiro na camisa? Cheiro de rico. Vai que o menino enjoa. Gorfa. Vai que gosta. E depois vai lavar as mãos, vai desinfetar, passar na boca água com sabão? E a camisa, vai botar no lixo?
Quer pegar meu filho no colo pra quê? Não tem o seu? Mas o seu tem babá, não tem? Tem quem receba pra pegar no colo, pra abraçar, pra beijar, pra amar. O amor que teu filho aprende já tem preço, meu senhor. Quer meu filho, então, pra quê?
Quer pegar meu filho. Não. Dá o menino aqui.
Dá um abraço em mim, se quiser. Quer?
Se tiver coragem. Tem?
A roupa é a mesma de dez dias. Tá suja. Tava catando latinha pra vender. Catando resto pra comer. A mão tá suja. A cara. Quer beijar?
Quer beijar meu filho? Dá um abraço em mim, se quiser. Se tiver coragem. Quer? Tem?
Eu te dou, meu senhor. Eu te dou um abraço.


Escrito por Paulo DAuria às 18h39
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