Blog do Paulo DAuria

07/07/2015

Meio a Meio

Marcos e Washington cresceram como irmãos. Carne e osso. 

Dividiram de brinquedos a namoradas. Baladas sempre juntos. A primeira carreira, idem: uma rapinha pra cada.
Marcos e Washington tinham 16 mas eram safos. Sócios no tráfico. Negócio próspero. Clientela boa. Rapaziadinha do Morumbi. Pagavam por proteção e a polícia dava uma força.
Mas uma hora tinha que dar merda. Sempre dá.
Mudou o comando da polícia. O novo delegado do distrito não se contentava com mesada, queria uma parte nos lucros.
A negociação foi dura, mas Marcos e Washington acabaram concordando. Eram eles que tinham a perder.
Mas todo mês o delegado queria mais. Mais todo mês. Mais e mais.
Naquela noite os meninos tavam chapados. O polícia apareceu com o recado:
— O delegado agora quer metade. Meio a meio.
— Mano! Cê tá doido? Meio a meio? Quem vai trabalhar na boca? Você?
— Pra começo de conversa, Mano é o caralho. Me chama de senhor, seu moleque! No mais, só tô passando o recado do doutor.
O polícia deu um tapinha “amigável” na cara de um, o outro não gostou, empurrou o polícia. O polícia botou a mão na arma, o primeiro já tinha sacado a sua. Dois pipocos na cara.

“Tá limpo! Tá limpo! Meu pai paga tudo! Advogado, tudo. A gente vai sair dessa juntos, irmão!”

Marcos era filho do doutor Wagner, morava no Morumbi. Washington era o filho da Dona Irene, a empregada. Morava na casa com a mãe. Cresceram como irmãos, Carne e osso.

“A senhora está despedida”

Quem deu o tiro?
Marcos ou Washington?
Quem apresentou a cocaína pra quem? Quem montou o negócio? Quem?

Marcos teve os melhores advogados, se livrou. Marquinhos é gente boa. Tem a vida pela frente. Errou. Foram as más companhias.
Washington e Dona Irene não tinham dinheiro pra advogado algum. Nem precisaram. O juiz foi rápido e eficiente: 30 anos.

Marcos nunca visitou Washington. Cresceram como irmãos. Nunca mais se viram.
Hoje faz cinco meses que Washington saiu. Dona Irene morreu há dois anos. Washington ainda não arrumou emprego, mas já arrumou um cano. Gente ruim, não tem jeito.
Marcos assumiu a empresa do pai. Está em sua Mercedes parado no sinal vermelho... — O que não é o destino?


Escrito por Paulo DAuria às 14h38
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