Blog do Paulo DAuria

28/02/2015

A Raposa, O Lobo e As Galinhas

 

 

Certo dia, em um galinheiro não muito longe daqui, uma raposa foi eleita para tomar conta do pedaço. Mas logo as galinhas começaram a ficar descontentes, pois alguém começou a espalhar boatos que a raposa estava comendo pintinhos na calada da noite. Os boatos foram aumentando e as provas começaram a aparecer: penas de pintinhos eram achadas aqui e ali ao amanhecer. Aparentemente a raposa estava ficando confiante e relaxada, e nem se preocupava mais em esconder seus malfeitos.

Foi então que um lobo, velho conhecido, que já havia sido eleito para tomar conta do galinheiro anos atrás e o havia largado aos frangalhos, reapareceu cantando de galo, “É tudo culpa da Raposa!” Vocês botaram a raposa pra tomar conta do galinheiro e vejam o que aconteceu! Eu sou mais forte que ela, me deixem expulsá-la daqui que eu boto ordem nesse galinheiro!”

As galinhas tinham memória curta e os boatos estavam tomando proporções nunca vistas. Além disso, foram tantas as promessas do lobo, que as galinhas se deixaram levar por sua astúcia. Depuseram a raposa e reconduziram o lobo ao posto de guardião do galinheiro.

 

O final dessa história, caros leitores, me recuso a contar, pois não sou dado a contos de terror.


Escrito por Paulo DAuria às 00h08
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14/02/2015

O Falecido

— Essa noite sonhei com o falecido.

— Qual deles, velhinha, o meu pai ou outro?
— Só existe um falecido! Falando assim você ofende a memória dele! E ofende a mim!
— Sei...
— Mas sonhei. Sonhei e ele me disse que você não está escovando os dentes com copinho, que está deixando a torneira aberta! Desperdiçando água.
— Ah, mãe, faz favor, né?
— Faz favor o quê? Você não vê tv? Não sabe da crise...
— Crise hídrica? O nome disso é incompetência administrativa! Choveu ontem e — olha, olha pela janela — vai chover já já de novo! Crise hídrica... isso se chama governador ladrão!
— Não fala mal do governador! (Tão lindo ele, aquele nariz adunco... — adunco... é assim que se fala? — Me lembra o falecido... ou algum astro do cinema... não me lembro bem qual...)
— Não falo mal, falo a verdade! Roubou o dinheiro da Sabesp e largou a gente sem água.
(Esse menino ainda acaba preso. Não respeita autoridade)
(Velha louca! Tem cabimento o falecido aparecer pra dedurar que não uso copinho pra escovar os dentes?!)

 

— Mãe, olha, te comprei esses baldes aqui. Guarda água pra eu poder tomar banho quando chego em casa.
— Guardar água? Precisamos economizar, não vou ficar enchendo balde!
— Pro meu banho, velhinha.
— Vem mais cedo pra casa. Mais cedo tem água.
— Custa guardar uns baldes d’água?
— Custa chegar mais cedo? Ver novela com a sua mãe?
(Era só pegar o travesseiro e enfiar na cara dela... Quem ia desconfiar? Já tá fazendo hora extra mesmo. Velha doida)
(Esse menino tá envolvido com droga. É droga isso. Não sou trouxa)
(Melhor ainda. Podia afogar ela num balde! Justiça poética. Coitada da velha)
(Droga! É droga! Qualquer dia esse porra me mata! Ah, que falta faz o falecido... Ele era homem de meter esse pirralho na cadeia!)

 

— Olha, olha, filho! O governador vai falar!

— Grande merda. Tô saindo.

— Vai aonde?

— Vou tomar banho na casa da Lurdinha. Ela botou uma caixa de três mil litros, a água não acaba nunca!

— Três mil litros! Valha-me, Deus!, que isso é até pecado!

(Coroca)

(Viado comunista)

"3... 2... 1... Está aberta a cadeia regional de televisão para o pronunciamento do excelentíssimo governador do Estado de..."

 

Viu o pronunciamento do governador na casa da Lurdinha?

— Eu lá tenho tempo pra isso?

— O negócio é sério, bebê...

— Ô, velhinha, há quanto tempo não me chama de bebê...

— Essa noite sonhei outra vez com o falecido...

— Ah, mãe, não me vem de novo com essa história de copinho, hein?

— Não. Ele veio me alertar, pedir pra você tomar cuidado aí nessas manifestações que você anda... Essas coisas de internet — internet, né? É assim que se fala? — Enfim, essas coisas aí que você se mete.

— Mãe, eu nem tenho perfil nessa bobagem de Face, isso é um grande Big Brother.

— Ai, filho, você viu o Big Brother? Aquele grandão, o loiro, sabe?, é tão lindo, né?

— Ê, mãe, respeite o falecido!

— O quê? Você me respeite!

— Toma, a Lurdinha mandou bolo de fubá pra você!

(Devia ter botado veneno!)

— Por que você não se acerta logo com essa menina?

(Pelo menos é mulher, né? Porque antes dela era aquele barbudo!)

— A Lurdinha não é nada minha, só companheira de célula.

— Quê...?

— Tamos partindo pra luta armada contra os babacas do impeachment.

— Puta que pariu!

— Mãe! Qué isso?! É brincadeira!

— Pois nem brinque! Nem brinque!

(Dessa vez quase matei mesmo, do coração! Velha louca!)

(Ai, que falta faz o falecido! O falecido era homem de ensinar ele a comer essa Lurdinha direito e parar com viadagem!)


Escrito por Paulo DAuria às 02h52
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07/02/2015

Científico

 

Uma expedição científica — arqueólogos, historiadores, biólogos, físicos etc — foi enviada para descobrir se um dia existiu amor, coração, poesia enfim em SP. Os aparelhos pareciam indicar debaixo de um primeiro nível de rochas sólidas algum registro de atividade emocional. De fato, depois de poucos dias de pesquisa as primeiras relíquias começaram a ser escavadas nas periferias da cidade. Era grande a quantidade de objetos encontrados nos locais das escavações: livros, olhares trocados, cartas de amor, poemas, esperanças, abraços. Os cientistas estavam animados, porém altos níveis de contaminação por sangue não permitiram que se restaurassem esses preciosos documentos, alguns totalmente destruídos por perfurações à bala. Desesperançosos os cientistas abandonaram o local. Alguns começaram a lançar suas hipóteses, tudo indicava que o amor havia sido exterminado em SP. Talvez por força de ordens oficiais. Esses cientistas no entanto foram afastados da expedição e mandados de volta a seus locais de origem.

Tempos depois descobriu-se um coração vivo enterrado em uma curva do Tietê. Um coração crivado de flechas tupinambás. E pulsante. E pulsante. Logo se descobriu outro debaixo do Pátio de Colégio e outro no espigão da Paulista. E outro e outro e outro. Coisa antiga. Eram milhares. Espalhados por toda cidade, dezenas de metros abaixo da terra, centenas de anos escondidos na História. Todos vivos. E pulsantes. E pulsantes. Todos cravados de flechas tupinambás. Arrancava-se as flechas e os corações morriam. Era preciso deixá-las enterradas na carne.

Os testes de DNA indicaram ser corações indígenas. Não tinham sido as flechas que os mataram. Alguns começaram a lançar suas hipóteses, tudo indicava que o amor havia sido exterminado em SP. Talvez por força de ordens oficiais: Aqueles eram os índios mortos pelos bandeirantes, As flechas não os afetavam, ao contrário, mantinham vivo seu espírito guerreiro. E os corações enterrados mantinham viva a esperança de cidade.

Ainda hoje alguns desses corações pulsantes, alguns dos objetos encontrados nas escavações nas periferias, alguns dos relatos desses cientistas podem ser encontrados em longínquos museus espalhados pelo mundo. Porém em SP nada restou. Todos os corações foram desenterrados e a cidade não passa de uma lenda perdida no tempo.


Escrito por Paulo DAuria às 01h19
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