A Carne, Uma Ópera Bufa / TENDAL DA LAPA 20 ANOS
1º Movimento - Andante A carne é o cru do homem. Pele, cabelo, dente, sorriso, o resto é truque de maquiagem.
2º Movimento - Grave Por baixo dos costumes bem cortados, por baixo dos costumes refinados, a carne, crueza do homem.
Por trás da linguagem empolada, por trás do brinde à saúde, nua, a verdade do homem.
A carne crua, o homem nu.
3º Movimento - Vivace Eu tenho pena é da vaca, da galinha, do porco, do passarinho; é só ter um bocadinho de carne, que o homem se põe a lamber beiço.
Jacaré tem gosto de galinha com peixe, tatu tem gosto de galinha com porco, capivara tem gosto de galinha com vaca, carne de gente é doce. De onde vem tanta sabedoria popular?
Eu tenho pena é da vaca, do carneiro, do cabrito, da rã; é só ter um tiquinho de carne que o homem se põe a babar ovo.
O que na Índia é sagrado, no Brasil é bife. Na França se come cavalo.
O que no Brasil é totó, na Coréia é acepipe. No México, iguana é Iguaria.
vaiformigafrita/cérebrodemacaco/ testículodecarneiro/olhodebode/ cobraaocurry/foca-morsa-zebra? Vai! Vai tudo! O que vier o homem traça!
Depois é febre aviária, suína, febre da vaca, vaca-louca, esquistossomose colestorol, infarto, brucelose.
Aí, o homem reza a Deus! Por que a Deus, se a única fé do homem é na fome?
Eu? EU TENHO PENA É DA VACA!
4º Movimento - Adagio Feijoada parece uma orgia de grãos, mas é uma sopa de porco.
Caviar é para poucos, mas não passa de ovos de peixe.
Dobradinha é nome chique para buchada de boi.
Hambúrguer, esfiha buraco quente, bolonhesa é tudo carne moída.
Carpaccio é boi cru, sashimi é peixe cru; a fome é homem nu, a gula, o homem-rei-urubu.
5º Movimento - Allegro Quando o europeu descobriu o Brasil, foi uma festa que jamais se viu: português, italiano, espanhol, holandês, destas nobres carnes um grande churrasco o índio fez! 
Como parte das comemorações pelos 20 anos do Espaço Cultural Tendal da Lapa, os Poetas do Tietê adotaram no mês de junho o tema CARNE VIVA. O Tendal, um dos mais democráticos e simpáticos espaços culturais da cidade, onde ministramos nossa oficina poética, a Papoetaria, e onde realizamos nossos saraus mensais (a cada último sábado do mês), funciona em um edifício tombado pelo Patrimônio Histórico onde outrora funcionou um matadouro. A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte!
Desejo-necessidade-vontade!
Escrito por Paulo DAuria às 17h26
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