Quando eu era menina, achava domingos de sol e as pessoas passeando de bicicleta no parque, a coisa mais bonita do mundo. Meu pai levava a bicicleta amarrada no capô do fusca. Chegando ao parque, parafusava as rodinhas e eu estava pronta pra ser feliz.
Quando eu era menino, folheando as revistas de costura de minha mãe, ia direto para os vestidos de noiva. Achava noiva a coisa mais bonita do mundo. Grinaldas, bouquet...
Quando eu era menina, Odiava as histórias que acabavam assim: “E viveram felizes para sempre.” Como assim? Para sempre é muito longe, é quase nunca!
Quer ver? Qual seria exatamente o contrário disso? Seria começar uma história assim, “E morreram tristes agora!” Não é? “E morreram tristes agora...” Ninguém começa uma história assim. Então por que terminar com “E viveram felizes para sempre?”
Alguém está boicotando o final dessas histórias... Estão me escondendo alguma coisa!
Quando eu era menino, ainda não entendia essa história de mulher da minha vida, mas já sabia que queria casar. Com quem, porquê, quando e onde eram questões que sequer passavam pela minha cabecinha. Eu apenas sabia que uma linda mulher toda de branco me esperava no futuro.
Quando eu era menina, não pensava em casar. Pensava em morar sozinha na Paulista, no máximo dividir apartamento com uma amiga. Trabalhar, ser independente.
O engraçado é que foi ela quem falou em casamento a primeira vez. Assim, no meio de uma conversa, naturalmente, “quando a gente se casar...” E eu, que sempre pensara nisso, levei um susto!
Saiu. Quando eu vi o espanto tava todo lá, estampado na cara dele. Quase me arrependi, mas falei por falar, sem perceber. Estes pensamentos viviam na minha cabeça ultimamente: a nossa casa, os móveis, as cortinas. Planos.
Por que eu, que sempre pensara nisso, tinha ficado assustado? Para onde tinham ido os vestidos todos, as mulheres de branco sonhadas em menino? Por que nunca pensara nela assim, se era evidente que era ela, - a mulher da minha vida? Sorri forçado, mas ela percebeu o meu desconforto.
Intuía que ele não teria medo do meu sucesso, como dizem que os homens têm das mulheres. Não ia desistir da faculdade, não ia desistir de nada. De nenhuma das bicicletas da vida.
Apenas acho que ninguém parafusaria as rodinhas no parque para nossos filhos melhor do que ele.
Percebendo que ela percebera que eu percebi que ela percebera... Recolhi o sorriso amarelo e continuei a conversa do ponto crítico em que ficara emudecido uma longa fração de segundos atrás: “Quando a gente se casar...”
- A conversa fluiu sem dor a partir desta descoberta simples: naquele momento eu deixara de ser menina.
- A conversa fluiu sem dor a partir desta descoberta simples: naquele momento eu deixara de ser menino.
conto publicado simultaneamente em
tema do mês de maio: "CASO OU COMPRO UMA BICICLETA?"
A dúvida mais antiga da história da humanidade é o tema do novo sarau dos Poetas do Tietê
Não faça cerimônia, venha e case-se você também com a noiva do dia, a poesia!
31/05 às 20:00h no Tendal da Lapa
brincadeirinha que não quer calar: "traje esporte-chic"
Caro amigo leitor, pensando em você, que sempre sonhou em ver o poeta de fraldas, aí vai uma seleção dos vídeos do sarOvo onde apareço declamando meus poemas do jeitinho que mamãe passava talquinho! Gugu-dadá!
Meus olhos queimando em teu colo palpitando em meus olhos
Minhas mãos derretendo em teus seios flutuando no ar
Meus lábios secando na saliva dos beijos mudos
E daí?
A culpa a falta a multa a penitência,
O pecado o certo e o errado
E daí se nossos corpos se consumirem
E daí se formos juntos para o céu
E pagarmos com o inferno?
Já está no ar a nova edição das Escritoras Suicidas com textos de Adelaide do Julinho, Florbela de Itamambuca, Mariza Lourenço, Nina Rizzi, Santa Maria, Silvana Guimarães, Shânkara Lis entre outras.
Abaixo, uma palhinha do conto "Berliner Mauer", de minha amiga Patty Flag: "Mas, querido, não havia muro naquela época. O muro só começou a ser construído bem depois de eu chegar ao Brasil. Você deve se lembrar, foi ali pelos anos 60. Já havíamos nos conhecido no Cassino da Urca e nos perdido de vista novamente. Na época do muro eu já estava na Vogue. Oromar esfregou as mãos e começou a se servir, elogiando o feijão que derramava com cuidado sobre o arroz, vagarosamente misturando o preto no branco."
Quando nos casamos, uma bicicleta não resolveria nosso problema. Nem um fusca 73 estava mais resolvendo.
Tínhamos esta necessidade de estar juntos que só os apaixonados entendem. E não era só pra fazer sacanagem não, Sr. Mente Suja! Precisávamos conversar, compartilhar o dia, acertar os ponteiros do mundo.
E essas longas digressões já naquela época começavam a ficar perigosas tarde da noite num fusquinha, e a atrapalhar o sono de nossos solteiros companheiros de quarto.
A bicicleta viria a seu tempo, mas então era tempo de casamento.
Casa não tínhamos, dinheiro muito menos. Mas, somando nossas vontades, nossos amigos e a gravata do noivo, até uma lua-de-mel nós tivemos.
E fomos andar de bicicleta na lua, na lua-de-mel, nas ruas da lua.
Muito tempo depois, nossa volta mais longa, queríamos ver um moinho, e os dois Dom Quixotes, cada qual Sancho Pança do outro, alugamos uma bicicleta em Bruges, Bélgica, e pedalamos, pedalamos, pedalamos até encontrar nosso moinho de vento.
O tempo das bicicletas havia chegado e parecia que iria durar para sempre!
Mas furaram-se os pneus, enferrujaram-se os aros, rodou o moinho dos tempos.
Nós dois seguimos em frente, hoje de patinete, amanhã de rolimã, depois, quem sabe?
Palhaços do circo do mundo, enquanto houver esta lona azul de sol e estrelas, até na corda-bamba nós vamos!
crônica publicada simultaneamente em
tema do mês de maio: "CASO OU COMPRO UMA BICICLETA?"