Blog do Paulo DAuria

30/01/2009

São Paulo à Vista!



São Paulo à vista!
O cometa vinha lotado:
Sonho, medo, esperança
Galinha, cabrito, gado,

E nenhuma idéia
De quem dorme
Na cadeira ao lado:

Migrante, japonês, turista,
Zarolho, piolho, punguista!

São Paulo à vista!
O cometa vinha lotado:
Pó de estrelas, vento solar
E a brisa do Rio Tietê.

Eu, você,
O diabo a quatro
Mais dez milhões de desgraçados
Indo e vindo e rindo e lindo
Através do vidro embaçado.

 

Poema publicado hoje em
Poetas do Tietê

Embarque em nossa viagem de janeiro:
Rodoviária



e acompanhem também:

 
 


Escrito por Paulo DAuria às 13h49
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28/01/2009

Sem Título

 

Urubu urubu urubupungá
Itapê itapê itapemirim
O cometa eu perdi por um triz
Eu era índio na última vez em que fui feliz

 

Mas em janeiro
Quando todo brasileiro
Embarca em sua própria versão
De um mediterrâneo cruzeiro

 

Eu vou comprar um bilhete
Para São Sebastião
Vou tomar um sorvete
E – ah! – vou ser feliz

 

Vou tomar banho de chafariz
Vou pedir bis à meretriz
Vou ser feliz como quem
Fez plástica no nariz

 

E depois eu vou rezar
Para que a existência se resuma
A um último verão

 

Porque a felicidade é uma pedrinha lisa
Pequenin pequeninin
Que escapa pelas mãos

 

Poema publicado hoje em
Poetas do Tietê

Embarque em nossa viagem de janeiro:
Rodoviária


Escrito por Paulo DAuria às 13h45
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26/01/2009

Todos nós tivemos verões

O piso de tábuas negras
a rede de vime negro
o rio prata a tarde a chuva
e a canoa no meio do rio

Os biscoitos doces da parada no meio da viagem
derretendo na língua os teus seios palpáveis como sonhos
os teus seios pelas frestas da camisa amadurecendo
como uma canção de Roberto Carlos

As canções de Roberto Carlos
o Cristo Redentor
os sorvetes teu sorriso pingando nas mãos meladas
a areia faiscando estrelas sob nossos dedos
a cachoeira nua
as fotografias queimadas
as mangas roubadas
os frutos proibidos
saltos d’água no escuro
cidades dissolvendo-se no ar
as andorinhas em Toledo

Lembranças bruxuleando velas nas quais descobrimos
a tinta invisível dos anos

Todos nós tivemos verões
amores de verão
dois olhos negros
pedindo carona nas trincas do asfalto
da Estrada Velha de Santos
de onde seguiríamos em frente

Todos nós tivemos verões
espumas nas ondas
rajadas de vento
um ponto negro no tempo
onde ficou combinado
seguiríamos em frente

Poema publicado hoje em
Poetas do Tietê

Embarque em nossa viagem de janeiro:
Rodoviária


Escrito por Paulo DAuria às 14h15
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24/01/2009

Sonhos para viver ou veneno para morrer

 

O mundo fazia caso de acabar, como já se acabara antes, ouvira dizer, muitas vezes.
Por dilúvio, por congelamento, por meteoritos vindos do espaço. Varrendo por estes meios e artes toda vida sobre si.

Os sinais, inequívocos, eram, no entanto, contraditórios: 10º em janeiro, 35º em junho, chuvas por demais, por de menos, descongelamento dos pólos, aquecimento global etc e tal.

Desistira de Deus na noite em que Nana se foi, arrastada por meses de doença surda às suas preces.
Agora pouca coisa fazia sentido no jornal da noite.
Coisa menos ainda na vida.

Matava a sede nas lágrimas secas dos meses.
Matava a saudade nas fotografias brancas dos olhos negros. 

Os filhos se achando nos descaminhos do mundo.
O caminhoneiro fazendo estrada; o afeminado na Itália.
Uma filha virou madre Teresa; a outra - uma beleza - acabou-se na zona como convém.

Na certa se esquecera de alguém.
Não importava, o mundo fazia caso de se acabar, Seu Chico também.

Mordeu o coração e deixou pingar o veneno sobre o último café coado.
Caneca quente aquecendo as mãos, saiu à soleira esperar pelo diabo.


Escrito por Paulo DAuria às 18h56
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22/01/2009

encefálico

 a minha massa encefálica
é meio falha / meio guaca
meio mole / meio fálica

abacate
com açúcar 

a minha massa cinzenta
não se conforma
em sua forma
e conteúdo
e se reinventa
a partir
do absurdo

 avocado do diabo
semeei  / sêmen hei
uma doce angélica
mas nasceu
uma flor
de pimenta pimentei
multicolor 

metade rosa / metade vermelha
metade verde amarela
azul anil


Escrito por Paulo DAuria às 19h12
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13/01/2009

Gaza não se acaba assim

 

Israel bombardeia Gaza
E se gaba:
"Dentre os 1.000 mortos é bem capaz,
de haver 400 soldados do Hamas." 

Mas o que Israel não sabe
É que se pode matar um homem,
Mas seus ideais sempre cabem
Dentro de um peito mais jovem. 

Esporos do ódio,
As bombas de Israel exortam
7 soldados novos
Para cada inocente morto;
7 mil soldados novos
Para muito além deste episódio.




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Acessem:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos_cultura/detalhe.asp?nconto=HDJ

E votem em meu conto "O Menino"
No concurso "Contos da Cultura"






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Escrito por Paulo DAuria às 19h54
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11/01/2009

O menino que dobrava ondas

 

1.

A criança trouxe o mar no copo de plástico.
Copo após copo o mar morria no castelinho de areia sedenta.

Mas para a garganta seca do homem
Nem copo nem Atlântico.

Onde anda menino
Que dobrava ondas
E Netuno?

 

2.

Mar, mar, mar,
O mar inteiro no olhar que abarca
O horizonte e mais e além e depois e antes; 

A maré constante na lágrima simples
Da saudade.

 

3.

Horas depois, o mar chegou aos seus pés. Maré.
Apoiando-se em ordinárias muletas, o velho volotu à estrada.

Não conseguiu explicar às crianças o que o levara a praia.

Mas ele sabia.
Zeloso de suas lembranças,
Tempos que guardou para lembrar no último dia,

E que a febre
Reconstruia.


Escrito por Paulo DAuria às 06h59
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