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| 31/08/2008 |
Pão & Poesia
 Imagem: Padaria Saudade, em Chibia, Angola In http //didacticadoportugues.blogspot.com
I - Farinha
Pão de casca grossa Biscoito que derrete na boca Bolo, torta, rosca Pastel, brioche, trança
Tudo, tudo, tudo Do mesmíssimo trigo
É por isso que eu sempre digo Esse papo De farinha do mesmo saco É melindre De padeiro fraco
II - Circo
E se Ao invés de pão e circo O lema romano fosse pão e poesia Isso mudaria a história do mundo? Assim, a ponto de: Poesia saindo da padaria A toda hora Quentinha ? E todo padeiro seria poeta Trigo seria caneta Pão doce seria soneto ? E se de repente acabasse o pão E só ficasse no mundo Poesia Pra alimentar tanta alma faminta ?
Forno Fornada Fornalha Eu quero ver o circo pegar fogo !

Escrito por Paulo DAuria às 15h53
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| 22/08/2008 |
Mundo e outros mundos
 Imagem: Another World - M.C. Escher
I Existem outros mundos
Existem outros mundos,
Como nos filmes de ficção, marte,
Onde os deuses são argonautas
E sílfides tocam flautas.
Mas todos eles são parte
De um mesmo universo corcundo.
Sim, existem outros mundos,
- Que jorram à beira dos olhos
Da menina apaixonada,
Que morrem na ponta da faca
Do psicopata caolho, -
Todos eles morimbundos.
Existem mundos para onde podemos fugir,
Pasárgadas, Macondos, Tlöns particulares,
Mas de todos eles teremos de voltar
Ao bombardeio no Iraque,
À aids na África,
Aos meninos da Sé.
Sim, existem outros mundos
Mais felizes que os nossos ordinários lares,
Mas em todos,
Cedo ou tarde,
Teremos de perder a fé.
II Má literatura
O mundo não rima, O mundo não liga para a verossimilhança, O dia-a-dia só tem métrica, Sem engenho, arte ou peripécias.
O mundo não obedece Aristótoles, O mundo nunca leu Harold Bloom, A história de nossa vida não tem sentido algum: A vida não é literatura.
O mundo não foge do chavão, Nele o herói sempre trai a nossa confiança E muitas vezes revela-se o vilão.
No clássico Kabul X Metrópolis Não sabemos quem é o gato e quem é o rato. A vida é um saco E não adianta esperar o plot point, O mundo não tem segundo ato: O mundo é má literatura.

Escrito por Paulo DAuria às 15h24
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| 15/08/2008 |
Dos usos e desusos do garfo e faca
 Imagem: http //makondephotography.com
Um banquete para duzentos talheres
Exige mais que etiqueta,
Black-tie para os homens,
Chapinha para as mulheres.
Para um jantar em família
É recomendável que não se perca o juízo,
Além disso,
A pizza pode ser comida em um guardanapo,
E pode-se chupar a manga através de um buraco
Aberto na casca.
Mas para o sopão dos mendigos
Nada,
Nada,
Nada
Apenas graças (em silêncio) Por mais uma refeição.

Escrito por Paulo DAuria às 17h06
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| 11/08/2008 |
Em templos olímpicos
 http://chasuma.blogspot.com/2007/12/tibetan-refugees-paint-life-in-exile.html
I - O horizonte perdido
Sempre com a cabeça nas nuvens Não há poeta que não passe temporadas em Shangri-lá, Ainda ontem, estive lá. Porém, derretiam-se os picos nevados do Himalaia, Todavia o Ever-est fervia, Never-est, Fever-est.
Sangue-lá.
Devo admitir, Desde 1949 não procurava meus amigos levitando nas montanhas, Mas eu não podia imaginar Que quando voltasse Eu veria o que vi:
O horizonte perdido.
II - Bad-minton
Eu não daria um pulo na china Eu não acenderia a pira da china Eu não quebraria um recorde na china Eu sequer jogaria peteca na china Bad-minton, bad
Eu não daria à china A honra de minha presença Eu sequer daria à china A medalha desdouro de minha indiferença
Mas quem sou eu Diante das grandes potências do mundo? O que é um simples poeta Diante dos grandes estadistas do mundo?
O poeta que se dane O diabo que o carregue E arraste o Dalai na lama E leve o Tibete com ele!

Escrito por Paulo DAuria às 03h18
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| 06/08/2008 |
Sapos Sapiens
 Imagem: http//michelesworld.net
Homo sapiens sapiens,
Mais sabem os sapos!
Quem é o cururu?
O ser da ilógica lógica ecológica
Ou o sapo cantando na beira da lagoa?
O ser humano,
O ser ônus,
O ser não nos unamos,
O ser não sei
Ou o sapo cantando na beira da lagoa?
Homo bufos bufos,
Bufo sapiens sapiens,
Quem é o bufo?
Quem é o bufão?
Homo stupidus stupidus,
Racionulidade.
(A racionalidade, com a idade, não vem.)

Escrito por Paulo DAuria às 17h46
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| 03/08/2008 |
Ela tocou a tarde
 Ilustração Paulo D'Auria
Ela tocou a tarde,
já não cria em mais nada,
rumo ao trabalho,
deixava-se levar pelo coletivo
até o olho do labirinto da cidade.
O escritório vazio (os colegas passando ao redor),
a cidade vazia (a multidão espremida no coletivo).
Ela conseguiu um lugar para sentar-se,
acomodou-se junto à janela
abrindo os vidros para respirar.
Colocou as mãos para fora
e lembrou-se menina
brincando com o vento
no banco de trás do carro da família.
As mãos para fora da janela,
voltou a sentir o vento,
percebendo que a tarde fendia à seu toque
como fosse o coletivo uma canoa,
e a tarde, as águas de um rio,
e suas mãos, suas mãos inteiras.
Sorriu,
fechou os olhos
e abandonou a timidez,
Esticando o braço o mais que pôde.
Ela tocou a tarde,
e a tarde se abriu na ponta de seus dedos.

Escrito por Paulo DAuria às 08h58
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