Blog do Paulo DAuria

28/01/2008

- Por Que Você Não Faz Um Poema Sobre Algo Que Nunca Tenha Dito Antes? - Parte 2


Imagem http //pokerpt.com

 

Eu nunca morri

Eu nunca fiz macarrão com molho branco

Eu nunca comi escargot

 

Eu não viajei para a Índia

Eu não me despi de índio

Eu não pari ainda

 

Eu não nasci de novo

E nem nasci de um ovo

( - Graças a Jurupari!

Porque teria quebrado

No dia da piracema

Quando caí da bunda de Macunaíma

No colo de Iracema)

 

Sobretudo e subtudO

Nunca fiz um poema sobre algo que eu nunca tinha dito antes

 

Por incapacidade de pensar

Em uma forma não risível

De desinvizibilizar

O indizível

 

Conheça essa novidade e os membros do comitê gestor do Projeto Macabéa

Hoje também estou no Cooperativa Disseminação
com o conto Microônibus. Passa lá.


Escrito por Paulo DAuria às 21h30
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27/01/2008

- Por Que Você Não Faz Um Poema Sobre Algo Que Nunca Tenha Dito Antes?

Aí você me disse,

- Por que você não faz um poema sobre algo que nunca tenha dito antes?

Abriu-se o mundo_____         ________Quedei-me mudo
Eu poderia falar       - tudo -      Eu já havia lhe dito
Nuncativenadaadizer)(Vocênãotinhaouvidosparamim


Então

Feito criança que brinca com insetos 

Destrinchei e esparramei palavras sobre a folha em branco

 

                    larvas                                pa                      largas
                          parvas                             la       la                            lavras

                                             parla                vras                     virais
                                                         varais


 
 

Assim

Como quem não diz nada

Como quem já disse tudo

Como quem

Chegou

Ao

Fim
.



Escrito por Paulo DAuria às 07h31
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25/01/2008

São Paulo Que Não Tem Cristo Que Nos Abrace

São Paulo que não tem Cristo que nos abrace,

São Paulo mato-grosso sem cachorro,

E no meio um capão redondamente grávido

De esperança.

 

São Paulo que não tem farol que nos ilumine,

São Paulo sem belo-horizonte,

Pernambuco sem mar,

Amazonas sem Yara.

 

São Paulo brasilândia bem mexida,

Batida,

Remoída,

Regurgitada.

 

São Paulo sem lei,

São Paulo meu rei,

São Paulo de cara virada com todos os santos

Que podiam acudir.

 

São Paulo sem brilho,

Sem diamantina,

São Paulo bijuteria.

 

São Paulo filho

De pai jesuíta

E mãe desconhecida,
Batendo calçada

Na vida.

 

São Paulo menino mal educado,

No pátio do colégio de castigo

Atrás da porta
Ajoelhado no milho.


Escrito por Paulo DAuria às 01h26
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Só Não Leva Quem Não Quer, Mas Que É Barato É!

 _________________________________________


"Quando Madama Carlota afirmou que sua vida iria mudar, não podia conceber o quanto.
Quando Olímpico de Jesus a trocou por Glória, jamais imaginou.
Ouça o chamado do navio: Queijos com goiabadas, datilógrafos, virgens, cadelas vadias, marilyns monroes grávidas de futuro, abastados proprietários de Mercedes Benz e desclassificados sociais acabam de se reunir para dar vida ao Macabelagem, Blog Literário do Projeto Macabéa.
Entre, prove a famosa Soupe aux Cheveux de nosso chef baiano.
Só não espere ficar à vontade, nada por aqui foi feito para ser comido frio."
___________________________________

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PS: E não estou dizendo só porque tem um conto meu, não!

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O artista plástico paulistano Luiz Pagano acaba de lançar a campanha
"Adote a Capivara Como Símbolo de São Paulo"
O blog é excelente, confira!


Escrito por Paulo DAuria às 01h19
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22/01/2008

Pirataria


Redhead - Peterson Colins

Ela vendia DVDs piratas de filme pornô. Na rua. No meio da rua. Do lado da estação de trens de subúrbio.
Na hora do almoço chegavam aqueles homens cheios de dúvidas: Esse é bom? Tem anal? Ela deixa gozar na cara?
"Ora, faça-me o favor! Sou evangélica, sim senhor!"
Sim, absolutamente evangélica. Vendia porque precisava ajudar a pagar o aluguel. Foi o único emprego que arranjou. O marido bebia, o filho roubava, a filha, sempre perfumada, nunca foi flor que se cheire.
"Agora eu lá tenho cara de quem assiste essa porcaria?
Um é cinco, três é dez!"
E era tanta provação que o Senhor lhe apresentava. Pois sua barraca não ficava bem defronte uma loja de artigos esotéricos?
"Loja de macumba, falando o português claro! Mas o moço, tão bonzinho, nunca comprou nenhum dos meus filmes, não. Nem parece que mexe com coisas do diabo. Uma vez até me chamou de meu bem."
Foi dessa feita, sentiu o roçar de seus dedos no vestido.
Teria sido a intenção?
"Fui pra casa. Meu marido mais ligeiro que o usual. Graças a Deus. Quanto mais pinga bebia, mais rápido fazia.
Depois, virei de lado e sonhei com essa coisa que contam: orgasmo."


Escrito por Paulo DAuria às 00h51
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20/01/2008

O Hospital

O homem passara a infância naquele hospital. Nunca pensou em voltar à cidade, e o hospital foi se sedimentando em sua memória como um filme antigo.
Acorriam-lhe lembranças confusas. O jardim perfeitamente igual há 30 anos atrás, mas não lembrava ser tão bonito.
Os grandes relógios dispostos a cada dez metros de corredor, tão pequeninos agora. E os corredores mais baixos, deixando os relógios redondos ao alcance de suas mãos. Como um "Alice No País das Maravilhas" particular.
Pelas mesmas portinhas de fórmica, beges, trinta anos mais limpas, logo começariam a sair anõezinhos e brancas de neve.
Mas as brancas de neve eram reais, se apaixonara por elas incontáveis vezes através dos longos anos de sua infância.
Elas vinham pela manhã, trocavam os lençóis de sua cama, testavam a temperatura do chuveiro e deixavam um sorriso agradável no ar.
Talvez neste mesmo quarto onde seu pai se encontrava deitado. Como saber? Eram todos iguais.
Imaginou que as janelas com vista para o aeroporto, os aviões tecendo teias imaginárias no ar, deviam incomodar o velho. Mas não falou nada sobre isso.
Não falou nada sobre nada. O pai estava dormindo.
Não sabia o que dizer.

Nunca pensou em voltar à cidade, e o pai foi se sedimentando em sua memória como um personagem antigo.
Comentou com a enfermeira que seria melhor não incomodá-lo, voltava amanhã.
Saiu rememorando o piso verde-água Era borracha afinal, nunca fora mármore.

Amanhã seria tarde demais?


Escrito por Paulo DAuria às 00h05
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19/01/2008

A Antipoesia Ri

Antes da poesia, a antipoesia.

Nas canetas dos burocratas,

Em notas corruptas,

Nos tapinhas nas costas,

No grito que se conformou em calar.


Antes da poesia, a antipoesia,

Poeira acumulada sobre todas as coisas

Que fazem o mundo ser

O que o mundo é.


E ela ri,

Canalha,

Como ria o princípio antes do verbo.


Ela ri,

Empurrando para o precipício qualquer

Insinuação de rima, qualquer

Possibilidade de verso.

 

ridamétricadoritmodaestética


Reduzindo o poeta a mero arquivista

De um mundo que,

- cá entre nós, -
Jamais poderia ter sido.


Escrito por Paulo DAuria às 01h42
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17/01/2008

A Pior Poesia do Mundo


Imagem Sebastião Salgado

Nem tudo o que é escrito em versos é poesia,
E nem toda poesia vem em forma de versos.

É óbvio que um poema que começa assim
Tem que falar do vento nos campos e das noites estreladas,
É claro que tenho que falar de olhos faiscantes
E lábios apaixonantes.

Mas, cumprida a lírica obrigação,
Preciso dizer das crianças nos semáforos
E suas mães escondidas atrás das moitas.
Preciso versejar as guerras
E os Georges Bushs escondidos atrás das mesas com tampos de mogno contrabandeado da Amazônia.
Precisa a minha pena passar pelos campos de petróleo em chamas no Irã,
Pela AIDS na África,
Pela Ignorância talibã no Afeganistão,
Pela xenofobia na Europa,
Pela crônica falta de ética brasileira,
Pela fome no mundo e pelo lixo do MacDonalds na 5ª Avenida.

Desculpem, caros leitores,
Mas isso também é poesia,
Ainda que a pior poesia do mundo.

Nem tudo o que é escrito em versos é poesia,
E nem toda poesia vem em forma de versos.
Jamais tanta poesia no mundo se conformaria com isso.

 

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Escrito por Paulo DAuria às 16h25
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15/01/2008

Passeio de Domingo

À porta de um bar um homem sem camisa e tatuado declama a antipoesia de sua vida.

Sob as marquises multidões de moradores de rua inventam suas salas de estar.

Junto ao meio-fio estacionam prostitutas e travestis.

Em um raro edifício histórico reformado a bandeira do Brasil luta para desfraldar-se desde a tempestade de ontem à tarde que a enrolou em seu próprio mastro.

 

Eu venho da exposição de Yoko Ono no Centro Cultural Banco do Brasil. Uma das obras mais impressionantes é uma escultura em bronze de uma família sentada em um banco, os estômagos côncavos de fome, as cabeças baixas, os corpos dobrados. Na concepção da artista, são corpos descobertos em 100 D.P. e datados de 50 A.P.

A.P. = Antes da Paz; D.P. = Depois da Paz.

 

Antes de entrar em meu carro, um real para o guardador.

Já que tenho tempo, resolvo ir embora pela Avenida Paulista. Passear um pouco antes que a luz acabe.

Subindo a Vergueiro, jovens de classe média ensaiam seu número de rebeldia assistida em um barzinho com música ao vivo.

Na avenida, congestionamento.

 

É estranho pensar que tudo faz parte de uma mesma realidade: A música ao vivo, os jovens, o guardador, Yoko Ono, os moradores de rua, as prostitutas, os travestis, a bandeira do Brasil tatuada no braço do ex-presidiário.

A realidade como um mosaico de bolhas de ilusão, um jogo de montar.

Bolhas materiais, como o aço de meu carro, - minha bolha em movimento, - mas o ar contido dentro delas, pura ilusão.

E as bolhas flutuando no ar, interagindo, conectando-se, desconectando-se.

Por vezes, umas explodem dentro de outras.

 

E o que acontece se um mendigo respirar o ar da ilusão da música ao vivo de um jovem de classe média?

O que acontece se no congestionamento, os vidros fechados, eu for asfixiado pelo ar de ilusão do bêbado reclamante?

E se Yoko Ono respirar o ar do guardador de carros?

Existe conexão possível?

 

A chuva fina homogeneíza as avenidas na mesma lama, tudo lava.

Levo a tristeza grudada em minha pele.


Escrito por Paulo DAuria às 01h34
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12/01/2008

EscrivAninhA

Escrevinha, Aninha, escrevinha.

Sobre a minha escrivaninha.

Esparrama as tuas manhas.

 

Rabisca

Qualquer risca

Arisca
Sobre o móvel,

Obtuso

Trambolho.

 

Mete o canivete

E um coração entalhado no tampo

Da mesa ilesa ao tempo,

 

Mete o canivete

E uma garatuja vulgar,

 

Que depois eu recolho

O que sobrar.

Serragem,

Serralho.

 

Escriba Aninha, escrava minha,

Aproveita,

Deita,

Arrisca.

 

O poeta está velho como a poesia,

Vão ser trocados no antiquário

Em troco de um aquário

Que enfeite a sala

De estar.

 

Que enfeite a vida rala

Como a bainha

De tua saia

De levitar.

 

Minha amiga Ana, do Mineiras, Uai! Fez uma linda crônica/poema baseada neste texto.
Para complementar esta leitura, clique aqui. Vale a pena!


Escrito por Paulo DAuria às 03h16
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09/01/2008

Metalinguagem 3

Meta poesia
Onde bem entender.
Meta poesia
No tempero da salada,
No suco de beterraba,
Em briga de marido e mulher.

Meta poesia
Onde melhor lhe apetecer,
Poesia de norte a soul,
Poesia no molho do angu.

Meta língüi stica
E estica,
Estica,

Meta língua gem e
Geme,
Geme,
Ai,
Ai,
Ah...
Aí!


Escrito por Paulo DAuria às 00h57
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Metalinguagem 2

A poesia é tão metida
Que quer se meter até
Com o trabalho do poeta:
"Ai, hoje não sei
Se estou mais para lírica
Ou concreta."

Ah, vai ver se estou lá na esquina!
Quem sabe não encontra a pobre rima, sua prima,
E vão procurar suas negas!

Tá na hora de descer do pedestal,
Dar um pé em sua mãe grega
E reatar com seu pai gutural.

E vê se me erra!
Toma tua linha
Que hoje não tô
Pra discutir relação!

Ah, sei lá, coração,
Tô com uma dor de cabeça,
... Não tô no clima...


Escrito por Paulo DAuria às 01h27
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08/01/2008

Metalinguagem 1

A poesia passa a noite falando de si mesmo,
O poeta acordado, escutando: 

"Eu rimo,
Eu canto,
Eu danço,
Eu metrifico-me: 90, 60, 90.

Sou Marta,
Rocha,
Sou mar,
E amar."

Qual a meta
Da metapoesia,
Se auto-indagar
Ou se auto-afirmar?

Reorganizar
Ou onanizar-se?

A poesia passa a noite falando de si mesmo,
E o poeta, desorientado, anotando
Tantas tagarelices narcisistas.

Faça-me o favor, que poesia chata!
Dicionário, teoremas, escoliose!
Bons tempos aqueles em que a madrugada se gastava
Entre vinhos, mariposas e tuberculose.


Escrito por Paulo DAuria às 13h33
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06/01/2008

Femina


Imagem: Tori Amos

 

Ainda não escolhi um nome. Queria usar algum daquelas canções: Bárbara, Luíza, Laura, Geni. Ou todos eles. Já faz algum tempo percebi que todas as canções são mentirosas. Como a vida.

 

Eu fui sua puta quando precisou, e fui sua mãe quando pediu. Mas, acima de tudo, fui atriz. E isso é um problema meu, eu fui porque quis.

 

Eu dei a entender que te amaria para sempre, e você se acomodou, deixou de ser cafajeste. A vida é mentirosa para todos nós. Não nasci para lavar cuecas.

 

Ainda não escolhi uma cor que me acomode, uma dor que me agrade. Tenho medo de não me conhecer amanhã, mas não suporto mais te reconhecer dia após dia, cada vez mais você.

 

Apenas gostaria que fosse embora. Mas não quero lhe dizer nada. Seria pedir demais que lesse nas entrelinhas de meu silêncio?


Escrito por Paulo DAuria às 02h15
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05/01/2008

Ainda Bem Que Choveu


www birdwatchersdigest.com

Ainda bem que choveu, regando a terra ressequida do jardim onde voaram ontem as breves libélulas da estação.

Ainda bem que choveu, tingindo de suave verde as dunas dos desertos onde ousamos escorregar feito crianças.

 

Bem que podiam chover dias inteiros desfazendo-se das folhas em branco do céu feito adolescentes apaixonadas que chorassem sobre seus diários cor-de-rosa.

 

Chover até o musgo tomar conta das paredes de nossa casa vazia de sentimentos úmidos.

Chover, chover, chover, até a umidade cobrir os degraus da escada que desaprendemos a subir.

 

E eu aproveitaria para por em dia drummonds, cecílias e clarices.

E essas recordações mudas, e esses poemas teimosos que não querem ser escritos.

 

Chover, bem que poderia chover por minha vida inteira. E, no fim, quando você me resgatasse com sua arca de maravilhas, atracaríamos no verão do mundo e viveríamos de soltar barquinhos de papel no meio-fio que corre para o rio.


Escrito por Paulo DAuria às 01h22
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03/01/2008

O Fauno e o Anjo


Imagem extraída do filme "O Labirinto do Fauno"

 

Você deve saber coisas
Que eu não sei,

Coisas que os anjos dizem

Ao pé de seus sonhos.

 

Você não sabe que eu sei,

Descobri agora,

Pelo farfalhar de teus dedos

Em meus pêlos.

 

E tampouco você sabe

Que as contém,

Porque não são sabedorias

Raízes quadradas,

Teoremas de Pitágoras.

 

São coisas que eu pressinto

Em teus instintos de bicho,

Na atenção despendida em teus beijos,

Nos cristais da carne de teus lábios,

Pela tensão de teus músculos quando goza,

Na penugem dourada de tuas coxas quando reza

Agachada

Debaixo da mesa.

 

E não anseio desvendar-te,

Sou feliz,

Rude fauno

A lhe cegar com alaúdes,

Roubando tuas ilusões.

 

- eu roubo para comer.


Escrito por Paulo DAuria às 15h31
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02/01/2008

Dois de Janeiro

“A solidão é um fato interior, separado das aparências, e que não impede nem a felicidade nem a alegria.”

Cecília Meireles

 

Diz o clichê, São Paulo é a cidade que nunca dorme. Seja como for, quarta-feira, meio-dia, o rapaz encontrou tempo para um cochilo em uma das esquinas mais movimentadas da cidade.

 

Qual o motivo do porre evidente? Difícil dizer, tão lívido ia o rapaz a contar seus carneirinhos.

Nos dias de hoje, no país da gente, a primeira coisa que nos vêm à cabeça é desemprego, mas fora da namorada também não pode ser menosprezado.

 

Dois de janeiro. Será só isso, abusou no reveillon?

Mas não tinha patrão, mãe, filho, amante, qualquer corrente que o arrastasse com o fluxo?

 

Ao menos um carro por segundo passava dando de ombros à sua modorra, preocupados que iam a levar seus donos para ziguezaguear por entre os ônibus.

Um por segundo, sessenta por minuto, sessenta vezes sessenta deles por hora.

E o rapaz alheio a tanto.

 

Pensei em cutucar seu ombro, perguntar, “Tudo bem, rapaz?” Mas hoje em dia não funciona mais assim. Cidade grande, cada um se preocupa com sua própria vida.

Vai que é golpe. Que é tarado. Que me pede dinheiro. Vai que o diabo a quatro. Sei lá.

 

Tudo isso em uma fração de segundo. Pensamentos quase sem pensar. Logo desviei meu caminhar para passar ao largo, e segui.

 

O ano estava apenas começando. Tanta coisa pra querer e outras tantas pra esquecer.

 

Dois de janeiro,

Quem tiver história melhor

Que conte ligeiro.
Escrito por Paulo DAuria às 12h49
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01/01/2008

Incensar


Imagem: UOL, Queima de Fogos em Copacabana

 

Começou à meia-noite na mais remota ilha do Pacífico. Aqui não era nem meio-dia ainda. Logo Japão, Austrália, Europa, África, todos se juntaram à grande queima de fogos.

Nos primeiros minutos do dia de hoje, da laje de minha casa na periferia de São Paulo, de onde assisti o espetáculo de cores, pude sentir na brisa o cheiro onipresente de pólvora. Como se a população do mundo inteiro incensasse sua casa, o Planeta Terra, para o ano que está começando.

É um ritual de limpeza. Todos de roupa nova, branca por sinal, esperando captar do Universo toda energia positiva que o momento tem a oferecer.

 

O que posso dizer? É como o título de um filme hollywoodiano, sim, este será “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”.

Mas o ano passado já não foi? E o outro? Não tem sido assim desde que algum Papa Gregório Qualquer decidiu que o ano se iniciaria em 1º de Janeiro? Ou mesmo antes?

E não será amanhã, e depois, e terça-feira da semana que vem também “o primeiro dia do resto de nossas vidas?”

 

Não pretendo contestar a importância do simbólico.

Eu sei que o homem, ser individualista que tem medo de dormir sozinho, necessita de rituais para entender a si mesmo, para exteriorizar seus desejos e temores mais secretos.

 

Apenas amanhã, quando estender a roupa branca no varal, não esqueça todas as promessas feitas.

Amanhã, quando a festa acabar, não esqueça, não é o ritual, não é o incensar, não é apenas o pensamento positivo. Tudo isso ajuda, mas só depende, mesmo, de você.


Escrito por Paulo DAuria às 12h36
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