Blog do Paulo DAuria

06/03/2016

Beijo, abraço, aperto de mão

 

Quer pegar meu filho no colo pra sair na foto. Comer comida aqui da favela. Que nunca viu. Nunca ouviu falar. E depois? Vai voltar? Vai responder nossas cartas? Vai receber nossas passeatas? Vai lembrar?
Quer pegar meu filho na foto pra dar um beijo. E esse sebo em teus cabelos? E esse cheiro na camisa? Cheiro de rico. Vai que o menino enjoa. Gorfa. Vai que gosta. E depois vai lavar as mãos, vai desinfetar, passar na boca água com sabão? E a camisa, vai botar no lixo?
Quer pegar meu filho no colo pra quê? Não tem o seu? Mas o seu tem babá, não tem? Tem quem receba pra pegar no colo, pra abraçar, pra beijar, pra amar. O amor que teu filho aprende já tem preço, meu senhor. Quer meu filho, então, pra quê?
Quer pegar meu filho. Não. Dá o menino aqui.
Dá um abraço em mim, se quiser. Quer?
Se tiver coragem. Tem?
A roupa é a mesma de dez dias. Tá suja. Tava catando latinha pra vender. Catando resto pra comer. A mão tá suja. A cara. Quer beijar?
Quer beijar meu filho? Dá um abraço em mim, se quiser. Se tiver coragem. Quer? Tem?
Eu te dou, meu senhor. Eu te dou um abraço.


Escrito por Paulo DAuria às 18h39
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18/12/2015

Modesto

tem quem pense que a poesia é tudo (poucos)
tem quem ache que a poesia é nada (muitos)
eu sou mais realista: não acredito na física
sei que a poesia é a matéria que constitui o mundo
o pó que havia antes das estrelas
a energia que faz o mundo

girar e parar
no ar

tem quem pense que poesia tem quer social
tem quem ache que se for social não é poesia
eu não brigo
poesia cada um tem a sua
um abismo em cada umbigo
um espanto em cada canto

eu vivo da poesia barata que cato no meio das latas dos ratos
tem quem prefira os literatos
a poesia é um vale tudo
briga de rua e tapas de pelica

eu passo longe
não faço isso pra mudar você
sou mais modesto:
só faço poesia pra mudar o mundo


Escrito por Paulo DAuria às 16h04
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07/07/2015

Meio a Meio

Marcos e Washington cresceram como irmãos. Carne e osso. 

Dividiram de brinquedos a namoradas. Baladas sempre juntos. A primeira carreira, idem: uma rapinha pra cada.
Marcos e Washington tinham 16 mas eram safos. Sócios no tráfico. Negócio próspero. Clientela boa. Rapaziadinha do Morumbi. Pagavam por proteção e a polícia dava uma força.
Mas uma hora tinha que dar merda. Sempre dá.
Mudou o comando da polícia. O novo delegado do distrito não se contentava com mesada, queria uma parte nos lucros.
A negociação foi dura, mas Marcos e Washington acabaram concordando. Eram eles que tinham a perder.
Mas todo mês o delegado queria mais. Mais todo mês. Mais e mais.
Naquela noite os meninos tavam chapados. O polícia apareceu com o recado:
— O delegado agora quer metade. Meio a meio.
— Mano! Cê tá doido? Meio a meio? Quem vai trabalhar na boca? Você?
— Pra começo de conversa, Mano é o caralho. Me chama de senhor, seu moleque! No mais, só tô passando o recado do doutor.
O polícia deu um tapinha “amigável” na cara de um, o outro não gostou, empurrou o polícia. O polícia botou a mão na arma, o primeiro já tinha sacado a sua. Dois pipocos na cara.

“Tá limpo! Tá limpo! Meu pai paga tudo! Advogado, tudo. A gente vai sair dessa juntos, irmão!”

Marcos era filho do doutor Wagner, morava no Morumbi. Washington era o filho da Dona Irene, a empregada. Morava na casa com a mãe. Cresceram como irmãos, Carne e osso.

“A senhora está despedida”

Quem deu o tiro?
Marcos ou Washington?
Quem apresentou a cocaína pra quem? Quem montou o negócio? Quem?

Marcos teve os melhores advogados, se livrou. Marquinhos é gente boa. Tem a vida pela frente. Errou. Foram as más companhias.
Washington e Dona Irene não tinham dinheiro pra advogado algum. Nem precisaram. O juiz foi rápido e eficiente: 30 anos.

Marcos nunca visitou Washington. Cresceram como irmãos. Nunca mais se viram.
Hoje faz cinco meses que Washington saiu. Dona Irene morreu há dois anos. Washington ainda não arrumou emprego, mas já arrumou um cano. Gente ruim, não tem jeito.
Marcos assumiu a empresa do pai. Está em sua Mercedes parado no sinal vermelho... — O que não é o destino?


Escrito por Paulo DAuria às 14h38
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15/04/2015

Tudo Azul

 

Tudo azul, capa do celular, camiseta nova, tênis última moda. E crachá pendurado no pescoço. Envelope debaixo do braço, hora do almoço.
10 anos, não mais, que mal tem trabalhar?
Idade de estudar?
Idade de brincar?
Que mal?
10 anos já inserido no mercado de consumo, na sociedade do trabalho.
Tudo azul, capa do celular, camiseta nova, tênis última moda. Tá bonitinho, o pretinho.
Tudo azul. Mora um pouquinho pra lá da Sul. Duas horas, não mais, ele vem. Duas horas ele volta, não mais.
Tempo de brincar.
Tempo de estudar.
Deixa ele trabalhar, depois tem tempo de descansar: Quando crescer vem trabalhar de porteiro, se muda aqui pro centro. Quer mais?
Isso se não tomar uma bala perdida.


Escrito por Paulo DAuria às 21h31
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28/02/2015

A Raposa, O Lobo e As Galinhas

 

 

Certo dia, em um galinheiro não muito longe daqui, uma raposa foi eleita para tomar conta do pedaço. Mas logo as galinhas começaram a ficar descontentes, pois alguém começou a espalhar boatos que a raposa estava comendo pintinhos na calada da noite. Os boatos foram aumentando e as provas começaram a aparecer: penas de pintinhos eram achadas aqui e ali ao amanhecer. Aparentemente a raposa estava ficando confiante e relaxada, e nem se preocupava mais em esconder seus malfeitos.

Foi então que um lobo, velho conhecido, que já havia sido eleito para tomar conta do galinheiro anos atrás e o havia largado aos frangalhos, reapareceu cantando de galo, “É tudo culpa da Raposa!” Vocês botaram a raposa pra tomar conta do galinheiro e vejam o que aconteceu! Eu sou mais forte que ela, me deixem expulsá-la daqui que eu boto ordem nesse galinheiro!”

As galinhas tinham memória curta e os boatos estavam tomando proporções nunca vistas. Além disso, foram tantas as promessas do lobo, que as galinhas se deixaram levar por sua astúcia. Depuseram a raposa e reconduziram o lobo ao posto de guardião do galinheiro.

 

O final dessa história, caros leitores, me recuso a contar, pois não sou dado a contos de terror.


Escrito por Paulo DAuria às 00h08
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14/02/2015

O Falecido

— Essa noite sonhei com o falecido.

— Qual deles, velhinha, o meu pai ou outro?
— Só existe um falecido! Falando assim você ofende a memória dele! E ofende a mim!
— Sei...
— Mas sonhei. Sonhei e ele me disse que você não está escovando os dentes com copinho, que está deixando a torneira aberta! Desperdiçando água.
— Ah, mãe, faz favor, né?
— Faz favor o quê? Você não vê tv? Não sabe da crise...
— Crise hídrica? O nome disso é incompetência administrativa! Choveu ontem e — olha, olha pela janela — vai chover já já de novo! Crise hídrica... isso se chama governador ladrão!
— Não fala mal do governador! (Tão lindo ele, aquele nariz adunco... — adunco... é assim que se fala? — Me lembra o falecido... ou algum astro do cinema... não me lembro bem qual...)
— Não falo mal, falo a verdade! Roubou o dinheiro da Sabesp e largou a gente sem água.
(Esse menino ainda acaba preso. Não respeita autoridade)
(Velha louca! Tem cabimento o falecido aparecer pra dedurar que não uso copinho pra escovar os dentes?!)

 

— Mãe, olha, te comprei esses baldes aqui. Guarda água pra eu poder tomar banho quando chego em casa.
— Guardar água? Precisamos economizar, não vou ficar enchendo balde!
— Pro meu banho, velhinha.
— Vem mais cedo pra casa. Mais cedo tem água.
— Custa guardar uns baldes d’água?
— Custa chegar mais cedo? Ver novela com a sua mãe?
(Era só pegar o travesseiro e enfiar na cara dela... Quem ia desconfiar? Já tá fazendo hora extra mesmo. Velha doida)
(Esse menino tá envolvido com droga. É droga isso. Não sou trouxa)
(Melhor ainda. Podia afogar ela num balde! Justiça poética. Coitada da velha)
(Droga! É droga! Qualquer dia esse porra me mata! Ah, que falta faz o falecido... Ele era homem de meter esse pirralho na cadeia!)

 

— Olha, olha, filho! O governador vai falar!

— Grande merda. Tô saindo.

— Vai aonde?

— Vou tomar banho na casa da Lurdinha. Ela botou uma caixa de três mil litros, a água não acaba nunca!

— Três mil litros! Valha-me, Deus!, que isso é até pecado!

(Coroca)

(Viado comunista)

"3... 2... 1... Está aberta a cadeia regional de televisão para o pronunciamento do excelentíssimo governador do Estado de..."

 

Viu o pronunciamento do governador na casa da Lurdinha?

— Eu lá tenho tempo pra isso?

— O negócio é sério, bebê...

— Ô, velhinha, há quanto tempo não me chama de bebê...

— Essa noite sonhei outra vez com o falecido...

— Ah, mãe, não me vem de novo com essa história de copinho, hein?

— Não. Ele veio me alertar, pedir pra você tomar cuidado aí nessas manifestações que você anda... Essas coisas de internet — internet, né? É assim que se fala? — Enfim, essas coisas aí que você se mete.

— Mãe, eu nem tenho perfil nessa bobagem de Face, isso é um grande Big Brother.

— Ai, filho, você viu o Big Brother? Aquele grandão, o loiro, sabe?, é tão lindo, né?

— Ê, mãe, respeite o falecido!

— O quê? Você me respeite!

— Toma, a Lurdinha mandou bolo de fubá pra você!

(Devia ter botado veneno!)

— Por que você não se acerta logo com essa menina?

(Pelo menos é mulher, né? Porque antes dela era aquele barbudo!)

— A Lurdinha não é nada minha, só companheira de célula.

— Quê...?

— Tamos partindo pra luta armada contra os babacas do impeachment.

— Puta que pariu!

— Mãe! Qué isso?! É brincadeira!

— Pois nem brinque! Nem brinque!

(Dessa vez quase matei mesmo, do coração! Velha louca!)

(Ai, que falta faz o falecido! O falecido era homem de ensinar ele a comer essa Lurdinha direito e parar com viadagem!)


Escrito por Paulo DAuria às 02h52
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07/02/2015

Científico

 

Uma expedição científica — arqueólogos, historiadores, biólogos, físicos etc — foi enviada para descobrir se um dia existiu amor, coração, poesia enfim em SP. Os aparelhos pareciam indicar debaixo de um primeiro nível de rochas sólidas algum registro de atividade emocional. De fato, depois de poucos dias de pesquisa as primeiras relíquias começaram a ser escavadas nas periferias da cidade. Era grande a quantidade de objetos encontrados nos locais das escavações: livros, olhares trocados, cartas de amor, poemas, esperanças, abraços. Os cientistas estavam animados, porém altos níveis de contaminação por sangue não permitiram que se restaurassem esses preciosos documentos, alguns totalmente destruídos por perfurações à bala. Desesperançosos os cientistas abandonaram o local. Alguns começaram a lançar suas hipóteses, tudo indicava que o amor havia sido exterminado em SP. Talvez por força de ordens oficiais. Esses cientistas no entanto foram afastados da expedição e mandados de volta a seus locais de origem.

Tempos depois descobriu-se um coração vivo enterrado em uma curva do Tietê. Um coração crivado de flechas tupinambás. E pulsante. E pulsante. Logo se descobriu outro debaixo do Pátio de Colégio e outro no espigão da Paulista. E outro e outro e outro. Coisa antiga. Eram milhares. Espalhados por toda cidade, dezenas de metros abaixo da terra, centenas de anos escondidos na História. Todos vivos. E pulsantes. E pulsantes. Todos cravados de flechas tupinambás. Arrancava-se as flechas e os corações morriam. Era preciso deixá-las enterradas na carne.

Os testes de DNA indicaram ser corações indígenas. Não tinham sido as flechas que os mataram. Alguns começaram a lançar suas hipóteses, tudo indicava que o amor havia sido exterminado em SP. Talvez por força de ordens oficiais: Aqueles eram os índios mortos pelos bandeirantes, As flechas não os afetavam, ao contrário, mantinham vivo seu espírito guerreiro. E os corações enterrados mantinham viva a esperança de cidade.

Ainda hoje alguns desses corações pulsantes, alguns dos objetos encontrados nas escavações nas periferias, alguns dos relatos desses cientistas podem ser encontrados em longínquos museus espalhados pelo mundo. Porém em SP nada restou. Todos os corações foram desenterrados e a cidade não passa de uma lenda perdida no tempo.


Escrito por Paulo DAuria às 01h19
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08/01/2015

enluarando


Escrito por Paulo DAuria às 10h49
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27/12/2014

Realidade Muda



Fotografia: Óscar Curros

 

Parece que foi ontem, hoje. Não mudou nada, parece. Lembra? Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento. Esquece. Há quem me chame — xingue — de idealista. Eu? Não sei. Há quem, admiro. Conformismo deriva de forma, estude latim. E não use realismo se não vive na realidade. Não põe os pés na calçada. Os buracos, o asfalto, o barro. A fome. A desesperança. A violência. E as crianças correndo no meio de tudo. Brincando. Sim, as crianças brincam. Ainda. Sempre. Lembra?
Hoje, parece ontem. Não mudou nada. Nunca.


Escrito por Paulo DAuria às 17h03
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04/10/2014

Malcriada

Interpretação de Jefferson Messias para meu poema "Malcriada"


Escrito por Paulo DAuria às 17h54
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31/05/2014

Ordem É Progresso

 

 

 

é proibido pisar na grama, diz a placa

mas não foi a grama quem proibiu

a grama tem saudades do menino, da bola

da toalha do piquenique, do pique, do pega-pega

 

a placa é apenas um pedaço de lata pintada

portrait de uma sociedade que assim se crê consciente:

proíbe pisar na grama

e a amazônia segue sendo devastada

 

é proibido pisar na grama

mas não é grama quem diz

e a placa é apenas um pedaço de lata pintada

por um funcionário que mal sabe desenhar as letras em ordem

em nome da ordem

de uma sociedade que assim se crê organizada:

enquanto uns permanecem semianalfabetos

a poucos, o paraíso

 

ordem e progresso

é proibido pisar na grama mas

pisar na gente

é permitido


Escrito por Paulo DAuria às 11h23
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08/03/2014

ser humano


Escrito por Paulo DAuria às 13h59
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11/02/2014

Cantando Janaína

Cantando Janaína

1.
Jana, daqui a pouco tem Copa, sei que você é fissurada em futebol... queria te levar prum jogo, mas não tenho essa banca toda. Então — Rola? — um rolezinho anti-Copa, uma manifestação no dia de Brasil e Croácia nos arredores do Itaquerão? Bora nessa, não tem frescura, não precisa roupa padrão Fifa, uma camiseta enrolada no rosto e já era! — Topa? — E tem a polícia, as bombas e as câmeras. De repente a gente até vira notícia. No mínimo tem a adrenalina, é foda! E por falar em foda, de repente rola até um amorzinho gostoso depois...

2.
Janaína daqui a pouco tem jogo, queria te trazer pra casa — dá pra ver o campo da janela  mas sabe que minha mãe não vai com a tua cara, então, de repente, quem sabe a gente não se encontra na esquina e vê o jogo pela TV no Bar do Carlão. Te pago umas cervejinha e você vem com aquela minissaia rosa que me dá tanto tesão. Depois a gente dá uns amassos no banheiro ou no escadão... Tem um lugar mais escurinho que é até concorrido...

3.
Janaína, por que não me atende mais? O jogo já foi, o jeito foi ver com minha mãe mesmo. Ouvi dizer que você caiu pro lado da ostentação? Cara, que decepção... te fiz tanto rap de amor pra você me deixar na mão...

4.
Jana. Tô ligando só pra dizer que nem tô mais na tua. Tô indo pro Rio pras manifestações da final. Um deputado fretou um ônibus pra rapaziada aqui. Vai uma rapa, vai ser da porra! Tamo levando bomba até umas hora!
— Péra, Cátia, não desliga!
— Oi...
— Oi... Me leva. Eu sempre quis ver o Cristo... Era o sonho da minha mãe... E depois — quem sabe? — não rola até uma ficada séria, padrão Fifa...



Escrito por Paulo DAuria às 02h27
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31/12/2013

Na Parelha

 

aparelho pra sorrir bonito
aparelho pra ouvir direito
aparelho para ver o certo
aparelho pra aumentar o pau
aparelho pra andar sem sair do lugar
aparelho pra colorir luar
aparelho pra dormir sem roncar
aparelho para estacionar helicóptero
aparelho pra cachorro não latir
aparelho pra aparar os pelos da orelha
aparelho pra nascer cabelo
aparelho pra gravar o sonho alheio
aparelho para abrir cofre a distância
aparelho para acreditar em deus
aparelho pra trazer a mulher amada
aparelho para as batidas do coração
aparelho pra ligar o aparelho de televisão

é tanto aparelho
pra botar a gente
na parelha

é tanto aparelho
que respiro
por aparelhos


Escrito por Paulo DAuria às 20h18
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25/11/2013

Esse Olho

25 de Novembro dia Internacional Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres

Esse Olho

Esse olho? Ah, o pai da minha menina aqui ontem deu porrada. Dói. Mas ligo não. Quer dizer, ligo, porque quando casou era assim não. Era beijinho e meu amorzinho e cheiro no cangote. Mas agora é essa cachaça e porrada, cachaça e porrada. Dói, mas largo ele não até a gente junto conseguir formar minha menina aqui na escola. Casei com ele, não foi?, pois agora ele que trabalhe. Que traga dinheiro, que eu cuido da horta, da casa, da minha menina. Cozinho pra gente, costuro pra fora. Dele, só quero que trabalhe. Pode encher a cara de cachaça, pode me encher a cara de porrada, mas traz o dinheiro no fim do mês direito, põe na mesa, que eu separo o tanto que é da escola da minha menina, dos cadernos, dos lápis. Que a minha menina vai se formar na escola. Ah, vai. A professora até já veio aqui em casa elogiar, dizer das lição bonita que ela faz, da letra, da inteligência. Minha menina vai se formar e vai ser professora de todas as meninas novas que nascerem aqui na cidade daqui pra frente. Pra ensinar pra elas que mulher não nasceu pra casar e embuchar e apanhar, pra ensinar pra elas o valor da mulher. Pra dizer que a mãe dela só fez o que fez depois que ela se formou. Que esperou, que tomou porrada calada, esperou ela ter o diploma na mão, daí sim, ela formada professora, daí sim, riscou o fósforo no bafo da cachaça, virou as costas e foi-se embora na direção de outra chama, a chama que arde ao pôr do sol lá na ponta, lá na ponta, lá ponta do outro lado do caminho.


Escrito por Paulo DAuria às 20h46
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