a poesia deve resgatar o que cala em minha alma ou não será poesia (segundo o Houaiss, há 40 significados para essa palavra de 4 letras ânima/ânimo/21 gramas/fonte da vida/essência imortal do ser/deus e diabo não será muita pretensão para tão magrelinha arte?)
a poesia deve ser lírica (mas há tantos e tão profundos eus Pessoa/pessoas/desconhecidos dentro de mim/ me olhando assustados por teus olhos eus que nem eu sei como poderia a poesia?)
a poesia deve ser isso e mais aquilo houve épocas que deveria ter métrica já teve por sina, a rima em certos istmos penas apenas com ritmo
esqueça não há nada que a resuma que a defina que a esclareça
esqueça a poesia é o nada o esquecido em tudo contido
1º Movimento - Andante A carne é o cru do homem. Pele, cabelo, dente, sorriso, o resto é truque de maquiagem.
2º Movimento - Grave Por baixo dos costumes bem cortados, por baixo dos costumes refinados, a carne, crueza do homem.
Por trás da linguagem empolada, por trás do brinde à saúde, nua, a verdade do homem.
A carne crua, o homem nu.
3º Movimento - Vivace Eu tenho pena é da vaca, da galinha, do porco, do passarinho; é só ter um bocadinho de carne, que o homem se põe a lamber beiço.
Jacaré tem gosto de galinha com peixe, tatu tem gosto de galinha com porco, capivara tem gosto de galinha com vaca, carne de gente é doce. De onde vem tanta sabedoria popular?
Eu tenho pena é da vaca, do carneiro, do cabrito, da rã; é só ter um tiquinho de carne que o homem se põe a babar ovo.
O que na Índia é sagrado, no Brasil é bife. Na França se come cavalo.
O que no Brasil é totó, na Coréia é acepipe. No México, iguana é Iguaria.
vaiformigafrita/cérebrodemacaco/ testículodecarneiro/olhodebode/ cobraaocurry/foca-morsa-zebra? Vai! Vai tudo! O que vier o homem traça!
Depois é febre aviária, suína, febre da vaca, vaca-louca, esquistossomose colestorol, infarto, brucelose.
Aí, o homem reza a Deus! Por que a Deus, se a única fé do homem é na fome?
Eu? EU TENHO PENA É DA VACA!
4º Movimento - Adagio Feijoada parece uma orgia de grãos, mas é uma sopa de porco.
Caviar é para poucos, mas não passa de ovos de peixe.
Dobradinha é nome chique para buchada de boi.
Hambúrguer, esfiha buraco quente, bolonhesa é tudo carne moída.
Carpaccio é boi cru, sashimi é peixe cru; a fome é homem nu, a gula, o homem-rei-urubu.
5º Movimento - Allegro Quando o europeu descobriu o Brasil, foi uma festa que jamais se viu: português, italiano, espanhol, holandês, destas nobres carnes um grande churrasco o índio fez!
Como parte das comemorações pelos 20 anos do Espaço Cultural Tendal da Lapa, os Poetas do Tietê adotaram no mês de junho o tema CARNE VIVA.
O Tendal, um dos mais democráticos e simpáticos espaços culturais da cidade, onde ministramos nossa oficina poética, a Papoetaria, e onde realizamos nossos saraus mensais (a cada último sábado do mês), funciona em um edifício tombado pelo Patrimônio Histórico onde outrora funcionou um matadouro.
A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte!
Quando eu era menina, achava domingos de sol e as pessoas passeando de bicicleta no parque, a coisa mais bonita do mundo. Meu pai levava a bicicleta amarrada no capô do fusca. Chegando ao parque, parafusava as rodinhas e eu estava pronta pra ser feliz.
Quando eu era menino, folheando as revistas de costura de minha mãe, ia direto para os vestidos de noiva. Achava noiva a coisa mais bonita do mundo. Grinaldas, bouquet...
Quando eu era menina, Odiava as histórias que acabavam assim: “E viveram felizes para sempre.” Como assim? Para sempre é muito longe, é quase nunca!
Quer ver? Qual seria exatamente o contrário disso? Seria começar uma história assim, “E morreram tristes agora!” Não é? “E morreram tristes agora...” Ninguém começa uma história assim. Então por que terminar com “E viveram felizes para sempre?”
Alguém está boicotando o final dessas histórias... Estão me escondendo alguma coisa!
Quando eu era menino, ainda não entendia essa história de mulher da minha vida, mas já sabia que queria casar. Com quem, porquê, quando e onde eram questões que sequer passavam pela minha cabecinha. Eu apenas sabia que uma linda mulher toda de branco me esperava no futuro.
Quando eu era menina, não pensava em casar. Pensava em morar sozinha na Paulista, no máximo dividir apartamento com uma amiga. Trabalhar, ser independente.
O engraçado é que foi ela quem falou em casamento a primeira vez. Assim, no meio de uma conversa, naturalmente, “quando a gente se casar...” E eu, que sempre pensara nisso, levei um susto!
Saiu. Quando eu vi o espanto tava todo lá, estampado na cara dele. Quase me arrependi, mas falei por falar, sem perceber. Estes pensamentos viviam na minha cabeça ultimamente: a nossa casa, os móveis, as cortinas. Planos.
Por que eu, que sempre pensara nisso, tinha ficado assustado? Para onde tinham ido os vestidos todos, as mulheres de branco sonhadas em menino? Por que nunca pensara nela assim, se era evidente que era ela, - a mulher da minha vida? Sorri forçado, mas ela percebeu o meu desconforto.
Intuía que ele não teria medo do meu sucesso, como dizem que os homens têm das mulheres. Não ia desistir da faculdade, não ia desistir de nada. De nenhuma das bicicletas da vida.
Apenas acho que ninguém parafusaria as rodinhas no parque para nossos filhos melhor do que ele.
Percebendo que ela percebera que eu percebi que ela percebera... Recolhi o sorriso amarelo e continuei a conversa do ponto crítico em que ficara emudecido uma longa fração de segundos atrás: “Quando a gente se casar...”
- A conversa fluiu sem dor a partir desta descoberta simples: naquele momento eu deixara de ser menina.
- A conversa fluiu sem dor a partir desta descoberta simples: naquele momento eu deixara de ser menino.
conto publicado simultaneamente em
tema do mês de maio: "CASO OU COMPRO UMA BICICLETA?"
A dúvida mais antiga da história da humanidade é o tema do novo sarau dos Poetas do Tietê
Não faça cerimônia, venha e case-se você também com a noiva do dia, a poesia!
31/05 às 20:00h no Tendal da Lapa
brincadeirinha que não quer calar: "traje esporte-chic"
Caro amigo leitor, pensando em você, que sempre sonhou em ver o poeta de fraldas, aí vai uma seleção dos vídeos do sarOvo onde apareço declamando meus poemas do jeitinho que mamãe passava talquinho! Gugu-dadá!
Meus olhos queimando em teu colo palpitando em meus olhos
Minhas mãos derretendo em teus seios flutuando no ar
Meus lábios secando na saliva dos beijos mudos
E daí?
A culpa a falta a multa a penitência,
O pecado o certo e o errado
E daí se nossos corpos se consumirem
E daí se formos juntos para o céu
E pagarmos com o inferno?
Já está no ar a nova edição das Escritoras Suicidas com textos de Adelaide do Julinho, Florbela de Itamambuca, Mariza Lourenço, Nina Rizzi, Santa Maria, Silvana Guimarães, Shânkara Lis entre outras.
Abaixo, uma palhinha do conto "Berliner Mauer", de minha amiga Patty Flag: "Mas, querido, não havia muro naquela época. O muro só começou a ser construído bem depois de eu chegar ao Brasil. Você deve se lembrar, foi ali pelos anos 60. Já havíamos nos conhecido no Cassino da Urca e nos perdido de vista novamente. Na época do muro eu já estava na Vogue. Oromar esfregou as mãos e começou a se servir, elogiando o feijão que derramava com cuidado sobre o arroz, vagarosamente misturando o preto no branco."
Quando nos casamos, uma bicicleta não resolveria nosso problema. Nem um fusca 73 estava mais resolvendo.
Tínhamos esta necessidade de estar juntos que só os apaixonados entendem. E não era só pra fazer sacanagem não, Sr. Mente Suja! Precisávamos conversar, compartilhar o dia, acertar os ponteiros do mundo.
E essas longas digressões já naquela época começavam a ficar perigosas tarde da noite num fusquinha, e a atrapalhar o sono de nossos solteiros companheiros de quarto.
A bicicleta viria a seu tempo, mas então era tempo de casamento.
Casa não tínhamos, dinheiro muito menos. Mas, somando nossas vontades, nossos amigos e a gravata do noivo, até uma lua-de-mel nós tivemos.
E fomos andar de bicicleta na lua, na lua-de-mel, nas ruas da lua.
Muito tempo depois, nossa volta mais longa, queríamos ver um moinho, e os dois Dom Quixotes, cada qual Sancho Pança do outro, alugamos uma bicicleta em Bruges, Bélgica, e pedalamos, pedalamos, pedalamos até encontrar nosso moinho de vento.
O tempo das bicicletas havia chegado e parecia que iria durar para sempre!
Mas furaram-se os pneus, enferrujaram-se os aros, rodou o moinho dos tempos.
Nós dois seguimos em frente, hoje de patinete, amanhã de rolimã, depois, quem sabe?
Palhaços do circo do mundo, enquanto houver esta lona azul de sol e estrelas, até na corda-bamba nós vamos!
crônica publicada simultaneamente em
tema do mês de maio: "CASO OU COMPRO UMA BICICLETA?"
Como fosse uma São Paulo de ontem, de bondes e trens das onze, hoje a São Paulo amanheceu garoa.
São Paulo terra boa, saudosa de si mesma, grávida de tantas São Paulos que não conheci, de locomotivas que não embarquei. Adonis de um Adoniran, bela de uma Bela Vista.
São Paulo prenha de amanhãs espargidos com a garoa de uma segunda-feira fria, morna de saudades do que poderia ter sido.
na hora de escolher uma ilustração para este post, logo me lembrei da dica de exposição de meu amigo Clayton em www.pontodefuga.jor.br
No primeiro dia da Papoetaria, no Tendal da Lapa, fizemos uma dinâmica de grupo que foi o pontapé inicial de toda a produção da oficina. O mote da dinâmica não foi extamente o ovo, mas a semente. Por isso este poema parece (apenas parece) estar um pouquinho fora do tema do mês, que na verdade engloba Ovo/Semente/Nascimento.
Tudo o que sei sobre o rapaz me disseram seus olhos no momento em que entrou no ônibus.
Sozinho, nas mãos uma sacola branca com três ovos baratos de chocolate. Parecia apenas querer um lugar para sentar, mas era evidente o cuidado com a sacola.
Quinta-feira véspera de feriado, oito horas da noite. Recém empregado em um escritório de contabilidade no Centro, saltou na Lapa para comprar os ovos.
Pouco mais que uma criança, lembrava de quando sua mãe lhe trazia para escolher ovos de chocolate barato.
Agora, chegara sua vez. Casado há poucos anos, dois filhos, levava o presente de Páscoa para os meninos e a esposa.
Tudo o que sei sobre o rapaz me disseram seus olhos no momento em que entrou no ônibus.
Sozinho, nas mãos uma sacola branca com três ovos baratos de chocolate. Parecia apenas querer um lugar para sentar, mas era evidente o cuidado com a sacola.
vejo crianças revirando lixo pedindo comendo isso e penso deve ser porque o universo não tem lado certo e a terrª fica boiando sem chão sempre de ponta cabeça
depois vejo a guerra no afeganistão os líderes da otan brincando com seus soldadinhos meninos não de chumbo se voltam para casa ou não eu acho deve ser porque o universo não tem verso ou inverso, e a tərra fica boiando sem sina e sem rima sempre de cabeça pra baixo
daí eu ouço um tiro mais perto ainda que na televisão ali na esquina descalça um pivete morreu tentando roubar um tênis de quinhentossu-Reai$ então eu invento deve ser porque o universo só tem avesso e a te®®a fica boiando sem sorte e sem norte sem rosa-dos-ventos que a guie sempre perdendo a cabeça
eu penso eu tento eu reinvento mas eu não entendo eu nunca entendo nasci burro demais